Impressiona o modo como as pessoas se habituam às situações cotidianas, boas ou más. É espantoso até como expressam descontração e certa dose de tédio, diante de fatos trágicos ou de perigo. Logicamente que nem todos compartilham de tão relaxante existência. Uns e outros padecem com o sofrimento. De qualquer forma, porém, entre o sufoco e o desespero, lá está ele, o incômodo sossego de alguém, cantado em prosa e em verso por um longo e efusivo bocejo, descarada intenção de mostrar àqueles, que a tranquilidade reina absoluta em meio ao caos. É como se a vida tivesse que ser assim, dura, só para amaciar o coro. Continue lendo “A MENINA DA FOTO”
DOCES OLHINHOS LACRIMEJANTES
Conversava, há pouco, com um amigo que dedica todos os dias de sua saborosa vida à gratificante e bem gratificada profissão de lecionar, e o assunto dizia respeito a algo sobre o qual pouco se fala numa roda de profissionais da educação, em sala especialmente montada para o desabafo da classe. Discutíamos, então, a personalidade século XXI da garotada, matéria prima do nosso ofício. Falávamos, inclusive, sobre uma nova tática de repreensão a professores malcriados, que alunos destituídos de qualquer compromisso com os estudos, vêm desenvolvendo (detalhes mais adiante) em suas horas de folga (todas). Que orgulho ter uma arma eficaz de calar a autoridade da sala no momento da aula! E têm conseguido, fazendo uso deste recurso que logicamente formará golpistas, sonho de papai e mamãe quando colocam o pimpolho na escola pública. Continue lendo “DOCES OLHINHOS LACRIMEJANTES”
SÁBIA NATUREZA
Oswaldo chorava diante da sepultura onde colocavam o corpo de seu velho e querido pai. Não podia suportar a ideia de ver entrando para sempre naquele buraco frio, pessoa tão amada que estivera ao seu lado por toda vida, quase cinquenta anos. Continue lendo “SÁBIA NATUREZA”
BARRACO EM NOME DA JUSTIÇA
Ando sempre pensando sobre a dificuldade que tem o ser humano em lidar com a complexa atividade de pensar. Parece contraditório, admito, já que passa a vida inteira a exercê-la… Chego até a considerar que o motivo de não conseguir desenvolver o pensamento, talvez esteja no fato de utilizar só uns míseros percentuais de sua mente brilhante. Penso muito nisso, principalmente quando presencio uma discussão em que duas pessoas partem para a agressão verbal, fazendo uso de todos os recursos linguísticos disponíveis em seu repertório, somente para ofender uma à outra. Continue lendo “BARRACO EM NOME DA JUSTIÇA”
ATMOSFERA IRRESPIRÁVEL
Acordei. A atmosfera ira irrespirável. Eu não sabia que acabava de acordar. Imaginava.
O cheiro forte era insuportável. Não conseguia definir o que era. Parecia… Continue lendo “ATMOSFERA IRRESPIRÁVEL”
A NOITE SEMPRE PROMETE
A noite prometia e o meu entusiasmo despontava tal qual o de qualquer um que adentrava o recinto que horas depois se transformaria num inferno difícil de acreditar e compreender. Era a sinistra presença da morte que viria nos apanhar como se cumprisse uma missão, um mandado de busca. Continue lendo “A NOITE SEMPRE PROMETE”
À BEIRA DO ABISMO
O moço do telejornal informa e sua voz é grave, seu olhar é de consternação. A notícia choca mais pela banalidade do que pela brutalidade em si: a moça, grávida de nove meses, recebe seis tiros e sua filha de apenas dois anos, também é alvejada pelo facínora que, segundo o seu entendimento, teria praticado algum ato de justiça, já que o companheiro da vítima, de alguma forma, lhe é devedor. No cérebro do assassino corre sangue como em qualquer outro. A diferença está no seu pensamento, também encharcado, mas com sangue alheio. Em nome de quê praticara tamanha barbaridade? Sentira-se gratificado ao final? Continue lendo “À BEIRA DO ABISMO”
CALUNIANDO O TEMPO
Declaro, com a devida veemência, o meu protesto ao povo que torce o nariz quando o tempo fecha e a chuva iminente é considerada sinal de mau agouro ou coisa que o valha. É compreensível até o medo de pessoas para quem o aguaceiro é certeza de desolação. Para todos, contudo, chuva é vida. Afinal, sem ela fica difícil imaginar qualquer espécie viva sobre a Terra. Parece, inclusive, que esqueceram de contar para essa gente caluniadora que tem água na composição física da maior parte de seu frágil organismo, e que sem ela tudo seca, sobretudo a respiração. Continue lendo “CALUNIANDO O TEMPO”
SENTIMENTO ARBÓREO
Daqui do alto, onde tudo é paz e de onde muito se vê desse lugar em que há mais de um século germinei, cresci e tenho convivido em paz com a passarada, espreito apreensiva a clareira que se abre cada vez maior. É apavorante ouvir o tombo de cada irmã. Não suporto o som infernal do motor que mata minhas companheiras de décadas e, aos poucos, engole a mata, desalojando bichos, pisoteando e destruindo pequenas mudas que sequer tiveram a chance de alcançar seu primeiro metro. Continue lendo “SENTIMENTO ARBÓREO”
A ARTE MILENAR
É de fato pra lá de inspiradora a arte que o bicho homem tem produzido ao longo de toda a sua história, por sobre esta terra que há de lhe comer os olhos, um dia. Começou por desenhar nas paredes de casa as suas aventuras que causariam espanto no semelhante de cérebro grande. E assim fez até que lhe doessem os braços. Aprimorou, então, sua técnica e buscou superfícies mais adequadas para representar imagens. Ficou mesmo deslumbrado. Principalmente ao perceber que a língua servia também para falar, razão de sobra para aposentar de vez os grunhidos e lançar mão de comunicação mais sofisticada. Por fim, inventou de escrever, achando que trocar figurinhas só pelo gogó podia deixar no esquecimento o assunto e, por meio da escrita, este haveria de durar mais. Genial! Então, estimulado pela intimidade com a nova mania, brincou com as palavras que fez surgir juntando as letras. E tanto se empolgou que criou versinhos, maneiras jeitosinhas de mandar recado em silêncio, embora às vezes, causassem algum barulho. Continue lendo “A ARTE MILENAR”