Declaro, com a devida veemência, o meu protesto ao povo que torce o nariz quando o tempo fecha e a chuva iminente é considerada sinal de mau agouro ou coisa que o valha. É compreensível até o medo de pessoas para quem o aguaceiro é certeza de desolação. Para todos, contudo, chuva é vida. Afinal, sem ela fica difícil imaginar qualquer espécie viva sobre a Terra. Parece, inclusive, que esqueceram de contar para essa gente caluniadora que tem água na composição física da maior parte de seu frágil organismo, e que sem ela tudo seca, sobretudo a respiração. Continue lendo “CALUNIANDO O TEMPO”
SENTIMENTO ARBÓREO
Daqui do alto, onde tudo é paz e de onde muito se vê desse lugar em que há mais de um século germinei, cresci e tenho convivido em paz com a passarada, espreito apreensiva a clareira que se abre cada vez maior. É apavorante ouvir o tombo de cada irmã. Não suporto o som infernal do motor que mata minhas companheiras de décadas e, aos poucos, engole a mata, desalojando bichos, pisoteando e destruindo pequenas mudas que sequer tiveram a chance de alcançar seu primeiro metro. Continue lendo “SENTIMENTO ARBÓREO”
A ARTE MILENAR
É de fato pra lá de inspiradora a arte que o bicho homem tem produzido ao longo de toda a sua história, por sobre esta terra que há de lhe comer os olhos, um dia. Começou por desenhar nas paredes de casa as suas aventuras que causariam espanto no semelhante de cérebro grande. E assim fez até que lhe doessem os braços. Aprimorou, então, sua técnica e buscou superfícies mais adequadas para representar imagens. Ficou mesmo deslumbrado. Principalmente ao perceber que a língua servia também para falar, razão de sobra para aposentar de vez os grunhidos e lançar mão de comunicação mais sofisticada. Por fim, inventou de escrever, achando que trocar figurinhas só pelo gogó podia deixar no esquecimento o assunto e, por meio da escrita, este haveria de durar mais. Genial! Então, estimulado pela intimidade com a nova mania, brincou com as palavras que fez surgir juntando as letras. E tanto se empolgou que criou versinhos, maneiras jeitosinhas de mandar recado em silêncio, embora às vezes, causassem algum barulho. Continue lendo “A ARTE MILENAR”
O FIM DA PICADA
É preciso ocupar a mente humana com assuntos polêmicos para incrementar as vendas, conspiram os produtores de livros, filmes, programas de TV, e afins, que se beneficiam largamente com eventos que são, nas rodas, objeto de muita discussão. Fatos que em demasia povoam o cotidiano da população, parece, não promovem falatório suficiente, e há sempre uma preocupação maior em se criar algo novo, capaz mesmo de desbancar o bate-boca oriundo das artimanhas da política fanfarrona, da saia justa em que ela constantemente mete a nação, da enchente, da bala, do terremoto, da ventania… Continue lendo “O FIM DA PICADA”
O OCASO DA VIDA
Velório deriva de vela, assim como velar deriva de vela. Não que vela seja acessório necessário lá naquela sala onde permanece o corpo por toda uma noite, somente para o lamento ou para as despedidas de quem nutre algum afeto pelo falecido. Aliás, lugar que serve também para pensar. Há tempo, silêncio e motivo de sobra para refletir. Continue lendo “O OCASO DA VIDA”